sa: veneno no escuro, uma faca arremessada
à alma. isto ele nunca poderia perdoar, tal como não era
capaz de perdoar Rhaegar. Matará a todos , compreendeu
Ned.
E, no entanto, sabia que não podia se manter em silêncio.
Tinha um dever para com Robert, para com o reino, para
com a sombra dejon Arryn... e para com Bran, que sem
dúvida devia ter tropeçado em alguma parte desta verdade.
Que outro motivo teriam para tentar assassiná-lo?
Durante a tarde mandou chamar Tomard, o guarda
corpulento de suíças ruivas a quem os filhos chamavam
Gordo Tom. Com Jory morto e Alyn distante, Gordo Tom
tinha o comando de sua guarda pessoal. A ideia encheu Ned
com uma vaga inquietação. Tomard era um homem sólido,
afável, leal, incansável, capaz a seu modo limitado, mas tinha
quase cinquenta anos e nem mesmo na juventude fora
enérgico. Talvez Ned não devesse ter se precipitado a enviar
para longe metade dos seus guardas, e com todos os melhores
espadachins entre eles.
- Vou precisar da sua ajuda - disse Ned quando Tomard
apareceu, com o ar levemente apreensivo que tinha sempre
que era chamado à presença do seu senhor. - Leve-me ao
bosque sagrado.
- Será sensato, Lorde Eddard? Com a sua perna e tudo?
Tomard chamou Varly. Com os braços em volta dos ombros
dos dois homens, Ned conseguiu descer os íngremes degraus
da torre e atravessar a muralha coxeando.
- Quero a guarda duplicada - disse a Gordo Tom. - Ninguém
entra ou sai da Torre da Mão sem a minha autorização.
Tom pestanejou.
- Senhor, com Alyn e os outros longe, já estamos
sobrecarregados...
- Será só por pouco tempo. Aumente os turnos.
- Como quiser, senhor - respondeu Tom. - Posso perguntar por
quê...?
- E melhor não - Ned respondeu bruscamente.
O bosque sagrado estava vazio, como sempre estava naquela
cidadela dos deuses do sul. A perna de Ned gritava quando o
depositaram na relva ao lado da árvore-coração.
- Obrigado - tirou um papel da manga, lacrado com o selo de
sua Casa. - Tenha a bondade de entregar isto imediatamente.
Tomard olhou para o nome que Ned escrevera no papel e
lambeu ansiosamente os lábios.
- Senhor...
- Faça o que lhe peço, Tom - disse Ned.
Não saberia dizer quanto tempo esperou no sossego do bosque
sagrado. Era um lugar tranquilo. As espessas muralhas
mantinham do lado de fora o clamor do castelo, e conseguia
ouvir aves cantando, o murmúrio dos grilos, o farfalhar das
folhas sob um vento fraco. A árvore-coração era um carvalho,
castanho e sem rosto, mas Ned Stark sentia nela a presença
dos seus deuses. A perna não parecia doer-lhe tanto.
Ela veio ao pôr do sol, quando as nuvens se avermelhavam
sobre as muralhas e torres. Veio só, como ele lhe pedira. Pela
primeira vez estava vestida de forma simples, com botas de
couro e roupas verdes de caça. Quando puxou para trás o
capuz da capa marrom, Ned viu a nódoa negra onde o rei lhe
batera. A zangada cor de ameixa esmaecera até tomar um
tom de amarelo, e o inchaço reduzira-se, mas não era possível
confundir a marca com outra coisa qualquer.
- Por que aqui? - perguntou Cersei Lannister, em pé, a seu
lado.
- Para que os deuses possam ver.
Ela sentou-se a seu lado na relva. Cada um dos seus
movimentos era gracioso. Os cabelos louros encaracolados
moviam-se ao vento, e os olhos eram verdes como as folhas do
verão. Passara--se muito tempo desde que Ned Stark lhe vira
a beleza, mas a via agora.
- Conheço a verdade pela qual Jon Arryn morreu - disse-lhe.
- Ah, sim? - a rainha observou-lhe o rosto, cuidadosa como
um gato. - Foi por isso que me chamou aqui, Lorde Stark?
Para me propor adivinhas? Ou será sua intenção raptar-me,
como sua esposa raptou meu irmão?
- Se acreditasse mesmo nisso, nunca teria vindo - Ned tocou-
lhe a face com gentileza. - Ele já tinha feito isso antes?
- Uma ou duas vezes - ela se afastou de sua mão. - Nunca no
rosto. Jaime o mataria, mesmo se isso lhe custasse a vida -
Cersei olhou-o em desafio. - Meu irmão vale cem vezes mais
que o seu amigo.
- Seu irmão? - disse Ned. - Ou seu amante?
- As duas coisas - ela não vacilou perante a verdade. - Desde
crianças. E por que não? Os Targaryen casaram irmão com
irmã ao longo de trezentos anos para manter o sangue puro.
Jaime e eu somos mais que irmão e irmã. Somos uma pessoa
em dois corpos. Partilhamos um ventre. Nosso velho meistre
dizia que ele chegou ao mundo agarrado ao meu pé. Quando
está em mim, sinto-me... completa - o fantasma de um sorriso
passou rapidamente sobre seus lábios.
-Meu filho Bran...
Para seu crédito, Cersei não desviou o olhar.
- Ele nos viu. Ama seus filhos, não é verdade?
Robert colocara-lhe a mesmíssima questão na manhã do
corpo a corpo. Deu a Cersei a mesma resposta.
- De todo o coração.
- Não mais do que eu amo os meus.
Ned pensou: Se chegasse a esse ponto, colocando a
v ida de uma cr iança que não conheço contra
Robb, Sansa, Arya, Bran e Rickon, o que far ia?
Mais , que far ia Catelyn, se fosse a vida de Jon
contra os f i lhos de seu corpo? Não sabia. E rezava
para nunca saber.
- Todos os três são de Jaime - ele disse. E não er